Mensagens

©Jomaro Cabrela_Só depois de morrer_2026

Imagem
Só depois de morrer Há muito que não ouvia a palavra amor. A solidão já era a sua companheira habitual. Já não distinguia o amigo que ajudava do amigo que a puxava para trás, nem o beijo da amizade do beijo de Judas. E os pedaços de nós que caminham fora de nós... Será que a iriam procurar porque já só se lembravam daquilo que dela poderiam receber? Faltava pouco tempo a última viagem aproximava-se. Finalmente, iria receber flores todas as semanas — as flores que nunca lhe ofereceram. Infelizmente, só o poderia confirmar depois de morrer. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Origens_2025

Imagem
Origens Cabrela, berço quase esquecido, pequeno lugar que me deu nome, ali nasci, num tempo embrutecido, nas mãos calejadas, de trabalho e fome. Na Idade Média, de história marcante, Sanfins foi concelho de antiga memória; alternava com Cosconhe o mando constante — nestes vales desponta a nossa história. Egas Moniz portucalense, aio de lealdade, em Resende e Cosconhe teve paços; serviu com honra, coragem e verdade, guiou Afonso nos seus primeiros passos. Piães é freguesia de fé e memória, Santiago é seu guardião primeiro; Gascos de Ribadouro com glória e história, fé e pedra uniram com zelo verdadeiro. Aqui as raízes do tempo resplandecem, desde o século décimo testemunhadas; as vozes da terra que nunca esmorecem — Piães e Tarouquela, sempre destacadas. Cinfães, concelho de alma serrana, de Serpa Pinto herda o valor militar, de vinho verde e mesa tão humana, povo de mãos prontas a trabalhar. Por entre montes desliza o Cabrum, nasce em Montemuro, serra encantada, dá vida aos vales, como...

©Jomaro Cabrela_O Refúgio no Silêncio_2026

Imagem
  O Refúgio no Silêncio O que importa mais: dizer-te e perder-te, ou não te dizer e fingir que te tenho, mesmo que seja apenas um pouco? Vives noutra margem que não é a minha. Finges ter outro idioma que eu não sei falar. Não te posso murmurar ao ouvido as coisas que te queria dizer, porque finges que não existo. Digo-as às sombras do meu quarto, baixinho, muito baixinho, para não acordar o que ainda sonho em ti. ©Jomaro Cabrela │2026

©Jomaro Cabrela_O Planeta que podia ser Feliz_2026

Imagem
O Planeta que podia ser Feliz Era uma vez um planeta verde e azul, chamado Terra, que girava em silêncio como se soubesse sonhar. Até que apareceram pegadas: havia rios que já não sabiam da sede, chuvas que semeavam dor, florestas que aprendiam a crescer devagar, enquanto outras formas de vida se espalhavam sem nome. Este planeta que cabia por inteiro na palma de uma mão até que a mão um dia se fechou. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_O Penoso Amanhecer_2026

Imagem
O Penoso Amanhecer Costumes Medievais Vou dizê-lo devagarinho, sem pressa de o dizer; não há prazer neste caminho ao tempo que me viu nascer. Mostro apenas um pedacinho desse penoso amanhecer, suportado em silêncio e dor. Nesta viagem pela minha infância recordo costumes medievais: fome, trabalho e ignorância, vidas acorrentadas a antigos rituais; trabalho infantil e arrogância, mitos e medos sobrenaturais, suportado em silêncio e dor. O religioso era temor e sagrado, os senhores, donos de tudo; o pobre, resignado e amestrado, trabalhava amargurado e mudo. A justiça, instrumento usado para oprimir o povo sisudo, suportado em silêncio e dor. Lugar para higiene não havia, dormíamos por cima do gado; o metano abafava e consumia, sangue invisível por todo o lado. Sem médico, sem literacia, na miséria de um beco fechado, suportado em silêncio e dor. Cinfães, terra do norte de Portugal, presa ao esquecimento e ao passado; o filho de agora pôde, afinal, escolher não viver escravizado. E dói s...

©Jomaro Cabrela_O Homem sem Tempo_2026

Imagem
O Homem sem Tempo O coração mecânico acordava o dia, rasgava abruptamente o silêncio, arrancando violentamente o corpo ao abraço de um sonho tranquilo. A rotina roubava o sossego, o pequeno-almoço de pé, as cadeiras vazias à espera de ninguém. O choro da criança ainda sonolenta. A mochila, o filho ao colo, as chaves... Pára. Escuta. Olha. Volta atrás. Não quer deixar nada esquecido. Uma olhadela no telemóvel, um deslizar de dedos, entre notícias e anúncios que depressa cairão no esquecimento. Pega no menino, senta-o na cadeirinha, liga à sua mãe para lhe ouvir a voz cansada, e saber das dores que a noite lhe deixara. Um beijo à mulher, breve e apressado; lá fora, a estrada já lhe engole o tempo. Já a caminho, lembra-lhe: — Não te esqueças de ir buscar o menino. Leva nos ombros horários, contas e preocupações. Uma buzina desperta-o do pensamento: num relance, lembra-se ainda do aniversário esquecido da irmã. Não pode distrair-se: o trânsito fecha-se à sua volta, e o dia será igual a tan...

©Jomaro Cabrela_O Gatilho_2026

Imagem
O Gatilho Antes do gatilho, houve a inércia, o silêncio, a ausência. Antes do desejo, houve uma necessidade. Antes da palavra, houve um pensamento escondido. Tudo desperta num instante, num gesto quase invisível, no germinar de uma semente que em silêncio se deixou crescer. É o gatilho. A pequena chama que acende a vontade, que move a mão, que abre uma porta, que inicia uma viagem. Nenhuma acção nasce sozinha. Antes do passo, houve impulso; antes da escolha, houve desejo; antes da decisão, houve uma inquietação. O corpo pede, a mente procura, a vontade insiste, a necessidade chama. E nesse momento escondido, algo se solta. É o gatilho. Nas preocupações que atormentam, nos sonhos que insistimos em perseguir, nos desejos que nos vencem, há sempre um primeiro instante, uma centelha inicial. Tudo tem um começo. Mas talvez a origem tenha despertado muito antes. E, quase sempre, quando tudo acontece, já havia uma causa escondida, à espera do gatilho. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Noites de medo_2026

Imagem
Noites de medo (Anos 60/70) Nesta pobre terra que nos viu nascer, mundo pobre, ignorante, cruel e rural, o sol despedia-se no belo entardecer, dava lugar à escuridão e ao sobrenatural. A Lua desenhava sombras na escuridão, as sombras sussurravam baixinho, uma brisa dava voz à nossa alucinação, o nosso medo fazia o resto sozinho. — Ontem apareceu uma bruxa ao senhor António; — O meu avô feriu um lobisomem naquela janela; — De noite sentia-me perseguido pelo demónio; — A filha do vizinho tinha o diabo no corpo dela. — Eu durmo com uma tesoura aberta na cabeceira; — Não vi nada, mas sentia alguém no meu quarto; — No sótão ouvem-se crianças na brincadeira; — Junto ao cemitério apareceu o falecido senhor Marto. Atentamente ouvíamos, sem pestanejar, entre as palavras havia apenas medo, os pêlos dos braços começavam a arrepiar, e o receio entrava em cada um, em segredo. O medo dormia connosco, lado a lado, até o ranger do soalho nos fazia tremer, o vento sussurrava palavras no telhado, noites...

©Jomaro Cabrela_Nasci adulto_2025

Imagem
Nasci adulto Nasci adulto, não fui menino, num mundo de pouco sorriso, duro, inculto, pobre e masculino, onde o amor era breve e impreciso. Não recordo o dia nem a idade em que brincar pudesse ser opção. Cresci no seio da dificuldade, num rio de imprevisível direcção. Pouco errei por simples brincadeira, cresci depressa, com pouco carinho. A vida dura foi minha companheira, testemunha do meu solitário caminho. Fui trapezista num circo sem protecção, sempre perigoso foi o meu avançar. Um pé no ar e outro preso ao chão, assim aprendi sozinho a caminhar. Paro frente ao espelho para me ver, procuro a criança que ficou esquecida. A prioridade foi sempre sobreviver e assim fui vencendo a própria vida. Olho para trás e não sei dizer se foi mais o que perdi ou o que ganhei. Refém da vida que me fez crescer, aqui cheguei, aqui estou — isso sei. Não sei quem desenhou este caminho, nem por que o tive de percorrer. Umas vezes depressa, outras devagarinho, umas vezes sorrindo, outras a sofrer. ©Jom...

©Jomaro Cabrela_Mentira_2025

Imagem
Mentira A mentira é o contrário da verdade, é a vontade de enganar, de tirar proveito do erro dos outros, uma sombra antiga que acompanha os seres humanos. Serve para obter vantagem, ocultar erros indesejáveis, evitar consequências, mas continua sempre a ser mentira. Uma mentira repetida muitas vezes até pode parecer verdade, pode convencer multidões, pode vestir-se de realidade. Mas uma mentira vestida de verdade continua a ser mentira. Mentir é enganar intencionalmente, é distorcer a verdade dos factos, é mudar a dimensão das coisas, é fingir esquecer o que se sabe. Quem mente conhece a verdade que decidiu ocultar. Por omissão, pode tentar evitar a dor; por exagero ou deturpação, pode querer impressionar ou influenciar. Mas é sempre mentira. Perdeu-se a vergonha no futebol, na política, no quotidiano, até na arte. A falsa verdade de muitos faz do engano espectáculo, faz da mentira profissão. A mentira, seja ela qual for, pode ser pequena ou gigante, pode ser repetida mil vezes, pode ...

©Jomaro Cabrela_Já não está cá quem falou_2025

Imagem
Já não está cá quem falou Coberto de terra e de razão, parti para um descanso merecido, sem pressa, sem dor, sem aflição, no lugar certo e com destino indefinido. Passei o rio que separa os mundos, essa fronteira que ninguém descreve; não vos preocupeis, são apenas segundos, instante breve, triste, mas leve. Parti sem dizer adeus, é verdade, prometo não inquietar mais ninguém; cheguei e deixei alguma saudade, fui o primeiro de nós a chegar além. Não receio o vento, a chuva ou o frio, nem a noite que vos possa assustar; não choreis por este breve desvario, vivei tudo o que houver para amar. Deixo atrás tudo o que pude ser, sonhos, erros, caminhos e labor; missão cumprida: posso descer este último degrau sem temor. Não é despedida, nem um desaparecer, apenas um passo para além do véu; há sempre outra forma de permanecer: em memória e mais uma estrela no céu. Em corpo e alma hei-de reencontrar-me, quando o mistério se fizer verdade; o teste acabou, posso ausentar-me, livre do peso da mort...