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A mostrar mensagens de agosto, 2026

©Jomaro Cabrela_Plano B_2026

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Plano B A alternativa. A segunda opção. Aquela que ninguém deseja até precisar dela. A descartada. A enjeitada. A preterida. É o outro lado, o menos bonito, a face oculta da solução. Quando o Plano A cai, é o Plano B que nos levanta. Dizem que não há Plano B. Mas ele existe. Vive em todas as portas que o Plano A não abriu. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Medo do silêncio_2026

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  Medo do silêncio Depois do tempo rápido veio o tempo lento. As pernas já não têm pressa, o corpo já se recusa a obedecer. Já ouço o silêncio nas paredes cinzentas do meu quarto. O mundo perdeu o fulgor que nos aquecia sem darmos conta. Deito-me e acordo em silêncio. Olho à janela, na esperança de alguém que não vem, ou de encontrar outra alma como eu, para fazer conversa. Já mal vejo o carteiro. Deixou de trazer cartas de saudade, com palavras vindas de longe. Agora traz apenas contas e restos de um mundo apressado. Mais um dia passa. Os avisos do corpo entram sem bater à porta. A visão, os ouvidos, as dores... tudo chega mais depressa do que eu. Nem se apercebem de que fiquei para trás. Já perdi a importância de outrora. Trago nos bolsos mais passado do que futuro. Já perdi a formosura da juventude, só carrego o peso da experiência. Parece que já não precisam de mim. De indispensável passei a dispensável. De flor passei a pedra. Até a vizinha partiu sem dizer adeus, com bilhete ...

©Jomaro Cabrela_Folha branca_2026

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  Folha branca Um mundo por descobrir, uma viagem por fazer, uma conversa por ter. Uma casa para construir, para habitar e logo abandonar. Uma estrada para caminhar, sem destino, e logo temos de voltar. Uma caminhada solitária, sem sabermos para onde vamos, sem sabermos quem nos vai ouvir: apenas importa dizer. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Futebol, Actores sem Máscara_2026

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  Futebol, Actores sem Máscara Num grande teatro chamado estádio,   os actores despem os fatos do dia;   num belo ensaio de teatro ao contrário,   já ninguém disfarça a sua cobardia,   deixam para trás toda a nostalgia. Lado a lado, são todos iguais:   a padeira ao lado da ginecologista bandido e juiz em gestos e rituais,   o sem instrução ao lado do cientista;   neste momento, toda a gente é artista. Não há religião que ali os separe,   nem cor política ou ideologia,   nem cargo ou estatuto que os compare,   nem cor da pele, nem a geografia,   unidos pelo nó da garganta e pela euforia. Mulheres, homens e tantas crianças,   nessa fragilidade que nos é igual,   ali depositam as suas esperanças;   no fulgor tremendo deste carnaval,   apenas os divide o "eles" e o rival. Entre o sucesso e o triste fracasso,   entre a alegria e a desilusão,   a linha que os separa é só o acaso;   neste turbilhão d...

©Jomaro Cabrela_Ilustre Desconhecida_2026

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  Ilustre Desconhecida Povoas a minha imaginação. Pensar-te já é pecado; a tua beleza e sedução sufocam-me, vives em cada canto dos meus sonhos. Se te tivesse de dar um nome, poderias ser Musa, por seres a essência da minha inspiração; ou Lilith, mistério e rebeldia da primeira mulher; ou Eva, princípio de todas as coisas. Talvez Maria, pela pureza que o teu rosto inspira; ou Lívia, serenidade silenciosa com que me despertas. Poderias ser Diana, caçadora dos meus pensamentos; ou Letícia, promessa de um sorriso por nascer. E talvez fosses Aurora, o primeiro clarão da manhã; ou Clara, luz tranquila que irradias; ou Luna, que me visitas nas minhas insónias, envolta no mistério que me inquieta; ou Estela, a guiar, sem pressa, o meu desassossego. Mas nenhum desses nomes te pertence por inteiro. Ficas sempre entre eles, como se a linguagem não bastasse. Vou simplesmente chamar-te Sofia, porque só a sabedoria compreenderia como alguém que nunca conheci habita tão profundamente a minha alm...

©Jomaro Cabrela_A Estrada sem Portagens_2026

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A Estrada sem Portagens Finalmente encontraram uma estrada e um veículo onde longe podem ir, embalados no conforto desta caminhada; é gratuita, sem portagens — é só seguir! Aprendem com outros nesta alvorada: sem regras, sem respeitar — é só poluir. Sem saber, ou sem vontade de aprender, deixaram para trás a cultura e formação; viram nessa liberdade uma força, um poder, motivo mais que suficiente para a transgressão. Sem saberem caminhar, nada os faz temer o jardim que esconde perigos na sua escuridão. Fazem das suas experiências da vida gramáticas que todos deviam usar; nem verdade nem razão são as preferidas, da privacidade e da segurança deixam de cuidar; na mentira e na falácia ninguém duvida, egoísmos exacerbados destilam ódio sem parar. Não sou juiz nem pretendo julgar ninguém, apenas quero lembrar os cuidados a ter; na liberdade e no poder que todos têm, há perigos escondidos que importa conhecer; nos cantos mais escuros desse além, para mais tarde não nos virmos a arrepender. E...

©Jomaro Cabrela_Escol_2026

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Escol   (Exame nacional de Português nos anos 80) Pairava um silêncio frio, de arrepiar, só se ouviam passos e breves murmúrios. Adivinhava-se um funeral ali perto:   o exame nacional de Português,   porta estreita para o ensino superior. Num automatismo cego e mecânico, entrámos para o velório anunciado. Só se ouviam os passos e o ranger das cadeiras, prontos para provar um saber que nunca nos tinham ensinado. Sob um silêncio imposto e receoso, percorria-se a prova com um olhar inquieto; mal havia tempo para medir a dificuldade. Afinal, o tormento não parecia grande: apenas havia uma palavra misteriosa. “Escol” — mas que raio significaria?! Quase todas as perguntas a rondavam, até a gramática a perseguia. Era uma ratoeira, tenho a certeza: nem os dicionários a registavam. Não era um exame ao saber, mas um ardil para fazer errar; assim o conceberam mentes perversas que, cobardemente, se sentiram grandes, fazendo da maldade prémio da cobardia. “Escol”: a nata, a fina-flor,...

©Jomaro Cabrela_Antes do Beijo_2026

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Antes do Beijo Segura de si, sentada à mesa da esplanada, aguarda alguém que tarda em chegar. Chegou primeiro: bebe um copo de vinho fresco, com sabor a sexta-feira, para acalmar a sede da alma; bebe devagar, enquanto o tempo escorre. Quer voltar a amar. Há um espaço devoluto no coração. A espera inquieta-a; o pensamento atraiçoa-a, leva-a para mundos turbulentos, inquietações que não queria sentir. Ignora tudo o que a rodeia. Um toque no ombro, desceu à terra. Um ramo de rosas vermelhas enche-lhe a janela do olhar. — Olá, desculpa… muita gente na florista! Lacraram o silêncio com um beijo. As palavras sobram onde o olhar basta. A noite promete. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Imagina_2026

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  Imagina Se fosses outro, outra vida, outra sorte. Mulher, homem, ou simplesmente diferente, e ter de lutar contra o mundo por aquilo que és. Não precisar de contar os tostões nem ter de fazer contas antes de comprar o pão, ou ver no lixo uma fonte de alimento. Ter um trabalho que te fizesse sorrir, ou passar a vida a servir sem nunca conhecer o prazer de fazer aquilo de que gostas. Não saber o que é uma doença, ou conhecer tão bem a dor que o teu corpo já não soubesse o que era viver sem ela, contando os dias até à morte, a sofrer. Poderias escolher, outra vez, com quem casar, ou nunca ter tido essa escolha. Ver o teu sustento no trabalho dos outros.   Ver o sol apenas através de um gradeamento. Ter o prazer sexual transformado num trauma para a vida inteira. Ser olhado de lado na rua, por causa da cor da pele, da religião, ou simplesmente por seres diferente. Poderias não ser dono do teu próprio corpo. Em vez de uma volta, teres uma corrente ao pescoço. Ter de pensar nas ra...