©Jomaro Cabrela_O Homem sem Tempo_2026
O Homem sem Tempo
O coração mecânico acordava o dia,
rasgava abruptamente o silêncio,
arrancando violentamente o corpo
ao abraço de um sonho tranquilo.
A rotina roubava o sossego,
o pequeno-almoço de pé,
as cadeiras vazias à espera de ninguém.
O choro da criança ainda sonolenta.
A mochila, o filho ao colo, as chaves...
Pára. Escuta. Olha. Volta atrás.
Não quer deixar nada esquecido.
Uma olhadela no telemóvel,
um deslizar de dedos,
entre notícias e anúncios
que depressa cairão no esquecimento.
Pega no menino, senta-o na cadeirinha,
liga à sua mãe para lhe ouvir a voz cansada,
e saber das dores que a noite lhe deixara.
Um beijo à mulher, breve e apressado;
lá fora, a estrada já lhe engole o tempo.
Já a caminho, lembra-lhe:
— Não te esqueças de ir buscar o menino.
Leva nos ombros
horários, contas e preocupações.
Uma buzina desperta-o do pensamento:
num relance, lembra-se ainda
do aniversário esquecido da irmã.
Não pode distrair-se:
o trânsito fecha-se à sua volta,
e o dia será igual a tantos outros,
feito de correria e obrigações.
O trabalho roubava-lhe o tempo.
Chega tarde.
O filho já dorme,
a mesa já o guarda em silêncio.
Amanhã será outro dia —
beija a mulher:
— Até amanhã, querida.
E, por algumas horas,
a vida apressada
fica suspensa.
Demasiado ruído para mim...
Agora o meu coração bate mais devagar.
©Jomaro Cabrela | 2026
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