©Jomaro Cabrela_Já não está cá quem falou_2025


Já não está cá quem falou

Coberto de terra e de razão,
parti para um descanso merecido,
sem pressa, sem dor, sem aflição,
no lugar certo e com destino indefinido.

Passei o rio que separa os mundos,
essa fronteira que ninguém descreve;
não vos preocupeis, são apenas segundos,
instante breve, triste, mas leve.

Parti sem dizer adeus, é verdade,
prometo não inquietar mais ninguém;
cheguei e deixei alguma saudade,
fui o primeiro de nós a chegar além.

Não receio o vento, a chuva ou o frio,
nem a noite que vos possa assustar;
não choreis por este breve desvario,
vivei tudo o que houver para amar.

Deixo atrás tudo o que pude ser,
sonhos, erros, caminhos e labor;
missão cumprida: posso descer
este último degrau sem temor.

Não é despedida, nem um desaparecer,
apenas um passo para além do véu;
há sempre outra forma de permanecer:
em memória e mais uma estrela no céu.

Em corpo e alma hei-de reencontrar-me,
quando o mistério se fizer verdade;
o teste acabou, posso ausentar-me,
livre do peso da mortalidade.

E se por mim alguma lágrima cair,
que seja breve e leve como o vento;
não me procureis onde deixei de existir;
encontrar-me-eis no vosso pensamento.

©Jomaro Cabrela | 2026

Comentários

Mensagens populares deste blogue

©Jomaro Cabrela_Galeria de Água e Luz_2026

©Jomaro Cabrela_A Procissão_2026