©Jomaro Cabrela_Noites de medo_2026


Noites de medo

(Anos 60/70)


Nesta pobre terra que nos viu nascer,

mundo pobre, ignorante, cruel e rural,

o sol despedia-se no belo entardecer,

dava lugar à escuridão e ao sobrenatural.


A Lua desenhava sombras na escuridão,

as sombras sussurravam baixinho,

uma brisa dava voz à nossa alucinação,

o nosso medo fazia o resto sozinho.


— Ontem apareceu uma bruxa ao senhor António;

— O meu avô feriu um lobisomem naquela janela;

— De noite sentia-me perseguido pelo demónio;

— A filha do vizinho tinha o diabo no corpo dela.


— Eu durmo com uma tesoura aberta na cabeceira;

— Não vi nada, mas sentia alguém no meu quarto;

— No sótão ouvem-se crianças na brincadeira;

— Junto ao cemitério apareceu o falecido senhor Marto.


Atentamente ouvíamos, sem pestanejar,
entre as palavras havia apenas medo,
os pêlos dos braços começavam a arrepiar,
e o receio entrava em cada um, em segredo.


O medo dormia connosco, lado a lado,
até o ranger do soalho nos fazia tremer,
o vento sussurrava palavras no telhado,
noites que jamais poderemos esquecer.


Estas almas do outro mundo,
que naquela noite nos faziam companhia,
enchiam-nos de um medo profundo,
e só partiam com a chegada do dia.


©Jomaro Cabrela | 2026

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