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©Jomaro Cabrela_Imagina_2026

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  Imagina Se fosses outro, outra vida, outra sorte. Mulher, homem, ou simplesmente diferente, e ter de lutar contra o mundo por aquilo que és. Não precisar de contar os tostões nem ter de fazer contas antes de comprar o pão, ou ver no lixo uma fonte de alimento. Ter um trabalho que te fizesse sorrir, ou passar a vida a servir sem nunca conhecer o prazer de fazer aquilo de que gostas. Não saber o que é uma doença, ou conhecer tão bem a dor que o teu corpo já não soubesse o que era viver sem ela, contando os dias até à morte, a sofrer. Poderias escolher, outra vez, com quem casar, ou nunca ter tido essa escolha. Ver o teu sustento no trabalho dos outros.   Ver o sol apenas através de um gradeamento. Ter o prazer sexual transformado num trauma para a vida inteira. Ser olhado de lado na rua, por causa da cor da pele, da religião, ou simplesmente por seres diferente. Poderias não ser dono do teu próprio corpo. Em vez de uma volta, teres uma corrente ao pescoço. Ter de pensar nas ra...

©Jomaro Cabrela_Desculpa_2026

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  Desculpa É uma palavra mágica e pequena, na ponta da língua, pronta a usar. Raramente a dizemos — e é pena; não é fácil, tenho de concordar. Tudo começa em reconhecer a culpa, vencer o orgulho que não quer ceder; avançar, reparar, pedir desculpa, deixa o bom senso prevalecer. Onde havia ira e desatino, faz-se silêncio, abranda a tempestade; e um simples gesto, pequenino, devolve à vida a própria humanidade. Se foste tu a dar o primeiro passo, ganhas sempre, foste atrevido; ele não foi capaz de dar esse abraço... A magia acontece — ninguém sai vencido. © Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_O Termostato do Mundo_2026

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  O Termostato do Mundo Neste recanto do Universo, em que o mistério se adensa, a matéria, em alquimia, deu vida: a própria vida e o seu lado perverso, o homem, na sua ganância imensa, e a saúde da Terra foi atingida. Este planeta – prova viva: continentes, oceanos a respirar; o egoísmo exagerado é cegueira. Hipotecamos o futuro de forma definitiva, ignoramos que esta maravilha um dia pode acabar e provocamos desequilíbrios de forma desordeira. O termóstato do mundo está a avariar, o maior reservatório de água a desaparecer, a temperatura média do planeta a subir... O planeta cansado começa a sufocar, fenómenos extremos estão a acontecer; se ficarmos quietos, a vida vai-se extinguir. O planeta já está há muito doente, não é solução ficar de braços cruzados. Os cuidados paliativos tardam em chegar, o que fazemos não basta, não é suficiente; temos de ser responsáveis e não ficar parados: sem a saúde do planeta, o futuro não vai chegar. Se o destruirmos, não temos de nos preocupar: o ...

©Jomaro Cabrela_Infâncias difíceis_2026

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  Infâncias difíceis — anos 60 e 70 Entre o trabalho e a escola, o brincar era a última opção; ser criança não era condição, crescia cedo, rapariga ou rapazola, num tempo de falta e privação. Bola, privilégio só de poucos, que jogávamos muitas vezes descalços; eram pequenos os nossos percalços, mas pareciam mundos loucos, em rudes e distantes palcos. Como se não bastasse, havia o rabugento e mau da fita, que do outro lado do muro grita: «Furo a bola se aqui cai!», dizia, ameaça dura e maldita. Hoje são apenas lembranças de tempos duros e diferentes; vidas humildes dessas gentes, em que faltava tudo às crianças, mas nos fizeram resistentes. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Passos Desiguais_2026

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  Passos Desiguais Quando ergui os olhos, já vivias na tua torre. Olhava-te cá de baixo, sem saber como te alcançar. Via a porta, mas não tive a coragem de entrar, nem sabia como subir, nem qual o caminho até ti. Tu, lá em cima, não reparavas em mim, ou talvez não soubesses descer um pouco e dizer-me como chegar junto de ti. Quero acreditar que também não sabias. Ficaste lá em cima e eu cá em baixo; a distância até ao encontro era a mesma. Nunca encontrámos esse misterioso caminho. Ficaste no teu lugar e eu continuei no meu. Serás o eco de uma infância perdida? E eu, talvez, apenas um momento esquecido. Somos apenas a memória de um desencontro que nem o tempo nem o espaço conseguiram unir. O tempo passou, mas a distância permaneceu. E a vida tornou-se uma corrida. Quando um vai mais depressa que o outro, só há uma forma de seguirem juntos: um tem de abrandar o passo, o outro de se esforçar um pouco mais. ...mas ainda hoje não sei qual de nós corria mais devagar e qual julgava ir ma...

©Jomaro Cabrela_Sol, Lua e Terra_2026

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  Sol, Lua e Terra Sol e Lua, casal adverso, em eterna dança sem fim, neste recanto do Universo, cuidam da Terra, este jasmim. O Sol, que nos ilumina e aquece, talvez sós nesta imensa escuridão, seguro de vida, sempre permanece, segura-nos em órbita — nobre missão. A Lua acompanha-nos sem parar, com movimentos suaves e belos, sem luz, ilumina-nos com o seu luar, na sua forma de amar, em gestos singelos. A Terra, paraíso de almas vivas, de continentes, oceanos e vida, a mais bela das obras criativas, mistério da matéria — obra atrevida. Até quando? © Jomaro Cabrela | 2026
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Retrete (Anos 60 e 70) Neste cubículo solitário, onde sem vaidade todos vão, cumpre-se o dever necessário, que ninguém cumpre por opção. Unidos no profano e no sagrado, num acto simples e natural, sem hora nem lugar marcado, todos cumprem esse ritual. Sem espaço reservado no lar, lá fora, num tosco barraco improvisado, mau cheiro e moscas não faziam hesitar, ante a vontade, importa estar desocupado. Faça chuva, frio ou sol, a qualquer hora da noite ou do dia, ao sair debaixo do lençol, um jornal velho tinha serventia. Quem pensa que pior não podia ser, a história mostra outro legado: havia lares que nem isso podiam ter, era no monte ou na corte do gado. ©Jomaro Cabrela | 2026