©Jomaro Cabrela_Nasci adulto_2025
Nasci adulto
Nasci adulto, não fui menino,
num mundo de pouco sorriso,
duro, inculto, pobre e masculino,
onde o amor era breve e impreciso.
Não recordo o dia nem a idade
em que brincar pudesse ser opção.
Cresci no seio da dificuldade,
num rio de imprevisível direcção.
Pouco errei por simples brincadeira,
cresci depressa, com pouco carinho.
A vida dura foi minha companheira,
testemunha do meu solitário caminho.
Fui trapezista num circo sem protecção,
sempre perigoso foi o meu avançar.
Um pé no ar e outro preso ao chão,
assim aprendi sozinho a caminhar.
Paro frente ao espelho para me ver,
procuro a criança que ficou esquecida.
A prioridade foi sempre sobreviver
e assim fui vencendo a própria vida.
Olho para trás e não sei dizer
se foi mais o que perdi ou o que ganhei.
Refém da vida que me fez crescer,
aqui cheguei, aqui estou — isso sei.
Não sei quem desenhou este caminho,
nem por que o tive de percorrer.
Umas vezes depressa, outras devagarinho,
umas vezes sorrindo, outras a sofrer.
©Jomaro Cabrela | 2025
Comentários
Enviar um comentário