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©Jomaro Cabrela_Noites de medo_2026

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Noites de medo (Anos 60/70) Nesta pobre terra que nos viu nascer, mundo pobre, ignorante, cruel e rural, o sol despedia-se no belo entardecer, dava lugar à escuridão e ao sobrenatural. A Lua desenhava sombras na escuridão, as sombras sussurravam baixinho, uma brisa dava voz à nossa alucinação, o nosso medo fazia o resto sozinho. — Ontem apareceu uma bruxa ao senhor António; — O meu avô feriu um lobisomem naquela janela; — De noite sentia-me perseguido pelo demónio; — A filha do vizinho tinha o diabo no corpo dela. — Eu durmo com uma tesoura aberta na cabeceira; — Não vi nada, mas sentia alguém no meu quarto; — No sótão ouvem-se crianças na brincadeira; — Junto ao cemitério apareceu o falecido senhor Marto. Atentamente ouvíamos, sem pestanejar, entre as palavras havia apenas medo, os pêlos dos braços começavam a arrepiar, e o receio entrava em cada um, em segredo. O medo dormia connosco, lado a lado, até o ranger do soalho nos fazia tremer, o vento sussurrava palavras no telhado, noites...

©Jomaro Cabrela_Nasci adulto_2025

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Nasci adulto Nasci adulto, não fui menino, num mundo de pouco sorriso, duro, inculto, pobre e masculino, onde o amor era breve e impreciso. Não recordo o dia nem a idade em que brincar pudesse ser opção. Cresci no seio da dificuldade, num rio de imprevisível direcção. Pouco errei por simples brincadeira, cresci depressa, com pouco carinho. A vida dura foi minha companheira, testemunha do meu solitário caminho. Fui trapezista num circo sem protecção, sempre perigoso foi o meu avançar. Um pé no ar e outro preso ao chão, assim aprendi sozinho a caminhar. Paro frente ao espelho para me ver, procuro a criança que ficou esquecida. A prioridade foi sempre sobreviver e assim fui vencendo a própria vida. Olho para trás e não sei dizer se foi mais o que perdi ou o que ganhei. Refém da vida que me fez crescer, aqui cheguei, aqui estou — isso sei. Não sei quem desenhou este caminho, nem por que o tive de percorrer. Umas vezes depressa, outras devagarinho, umas vezes sorrindo, outras a sofrer. ©Jom...

©Jomaro Cabrela_Mentira_2025

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Mentira A mentira é o contrário da verdade, é a vontade de enganar, de tirar proveito do erro dos outros, uma sombra antiga que acompanha os seres humanos. Serve para obter vantagem, ocultar erros indesejáveis, evitar consequências, mas continua sempre a ser mentira. Uma mentira repetida muitas vezes até pode parecer verdade, pode convencer multidões, pode vestir-se de realidade. Mas uma mentira vestida de verdade continua a ser mentira. Mentir é enganar intencionalmente, é distorcer a verdade dos factos, é mudar a dimensão das coisas, é fingir esquecer o que se sabe. Quem mente conhece a verdade que decidiu ocultar. Por omissão, pode tentar evitar a dor; por exagero ou deturpação, pode querer impressionar ou influenciar. Mas é sempre mentira. Perdeu-se a vergonha no futebol, na política, no quotidiano, até na arte. A falsa verdade de muitos faz do engano espectáculo, faz da mentira profissão. A mentira, seja ela qual for, pode ser pequena ou gigante, pode ser repetida mil vezes, pode ...

©Jomaro Cabrela_Já não está cá quem falou_2025

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Já não está cá quem falou Coberto de terra e de razão, parti para um descanso merecido, sem pressa, sem dor, sem aflição, no lugar certo e com destino indefinido. Passei o rio que separa os mundos, essa fronteira que ninguém descreve; não vos preocupeis, são apenas segundos, instante breve, triste, mas leve. Parti sem dizer adeus, é verdade, prometo não inquietar mais ninguém; cheguei e deixei alguma saudade, fui o primeiro de nós a chegar além. Não receio o vento, a chuva ou o frio, nem a noite que vos possa assustar; não choreis por este breve desvario, vivei tudo o que houver para amar. Deixo atrás tudo o que pude ser, sonhos, erros, caminhos e labor; missão cumprida: posso descer este último degrau sem temor. Não é despedida, nem um desaparecer, apenas um passo para além do véu; há sempre outra forma de permanecer: em memória e mais uma estrela no céu. Em corpo e alma hei-de reencontrar-me, quando o mistério se fizer verdade; o teste acabou, posso ausentar-me, livre do peso da mort...

©Jomaro Cabrela_Ir ao outro lado_2026

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  Ir ao outro lado Ir ao outro lado. Às vezes, ali tão perto, mas tão distante para lá chegar. É o lado do inimigo, o desconhecido, longe da zona de conforto, no terreno minado. Até pode ser fácil lá chegar, podemos até conhecer as pedras do caminho; o difícil é o regresso — ou talvez já nem faça falta saber voltar. — Mas vou. Parto para descobrir a verdade. Prometo voltar. Volta. Um Inverno mais tarde. Já não ouve o som do perigo. Mas a verdade vem com ela — num saco preto. O outro lado da vida. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Inventário dos Homens_2026

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Inventário dos Homens Uns anseiam o divino, mas temem morrer. Outros pretendem a riqueza, mas nunca se dão por saciados. Todos imploram por saúde, mas são poucos os que a cultivam. Muitos perdem-se na beleza e mal cuidam da pouca que herdaram. Há os que vivem para viajar, eternos escravos desse desejo. Há também os que vivem para ser: os melhores, os primeiros, os mais fortes, os mais talentosos, os eruditos, os únicos. Alguns já acreditam que o são; outros, resignados, sabem que nunca o serão. Há ainda os pobres que nasceram e morrerão na miséria; os feios, que nunca serão belos; os doentes que partem cedo demais; e os que enfrentam a morte sem temor, porque cresceram e singraram entre as pedras da calçada. Quando ela vier, que venha. Restam os que aprenderam a habitar a própria pele. Aqui estou: eu sou assim. Que importa medir o que não pode ser medido? ©Jomaro Cabrela | 2026  

©Jomaro Cabrela_Ciclo da Vida_Bruno_2026

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  Ciclo da Vida   Retrato de um Filho — Bruno O tempo passa apressado. Num instante, passamos de filhos a pais. Sem nos pedir licença, o ciclo da vida continua. Julgávamos ensinar, mas fomos ensinados pela vida, pelos filhos, a ver o que antes tantas vezes ignorávamos. E então chegaste tu. Pequeno, um diabrete de menino, com uma confiança que desafiava o medo e roubava o nosso descanso. Não paravas, só quando o sono te vencia ou para ver as Tartarugas Ninja. Depois,   quase sem darmos por isso,   o infantário tornou-se escola.   A infância,   esse caos maravilhoso,   ia dando lugar   a outra forma de crescer. Sem alarde, transformavas a tua energia em vontade de aprender e em mãos estendidas para quem caminhava mais devagar. Que privilégio foi assistir a essa transformação. Cresceste. Bom aluno, mas nunca apenas isso. As crianças pareciam ler-te a alma antes mesmo de conhecerem o teu nome. Nos animais vias companheiros, na música uma voz maior do ...