©Jomaro Cabrela_Ciclo da Vida_Bruno_2026
Ciclo da Vida
Retrato de um Filho — Bruno
O tempo passa apressado.
Num instante,
passamos de filhos a pais.
Sem nos pedir licença,
o ciclo da vida continua.
Julgávamos ensinar,
mas fomos ensinados
pela vida, pelos filhos,
a ver o que antes
tantas vezes ignorávamos.
E então chegaste tu.
Pequeno,
um diabrete de menino,
com uma confiança
que desafiava o medo
e roubava o nosso descanso.
Não paravas,
só quando o sono te vencia
ou para ver as Tartarugas Ninja.
Depois,
quase sem darmos por isso,
o infantário tornou-se escola.
A infância,
esse caos maravilhoso,
ia dando lugar
a outra forma de crescer.
Sem alarde,
transformavas a tua energia
em vontade de aprender
e em mãos estendidas
para quem caminhava mais devagar.
Que privilégio foi assistir
a essa transformação.
Cresceste.
Bom aluno,
mas nunca apenas isso.
As crianças
pareciam ler-te a alma
antes mesmo de conhecerem
o teu nome.
Nos animais
vias companheiros,
na música
uma voz maior do que as palavras,
na fé
um lugar de encontro.
Aprendeste cedo
que olhar o outro
é já uma forma de ajudar.
Pelo caminho
não faltaram pedras.
Mas havia em ti
uma luz discreta
que sempre foi maior
do que qualquer sombra.
E, entre tantas coisas,
levavas o Benfica no coração,
como se as pequenas fidelidades
também ajudassem
a construir-nos.
Vieram depois a licenciatura,
o mestrado, as responsabilidades,
os desafios e o mundo dos adultos.
Cresceste sem atropelar ninguém,
sempre fiel aos teus princípios.
Difícil de enganar,
não por desconfiança,
mas porque aprendeste
a distinguir
a luz verdadeira
do que parece luz.
Houve dias de lama,
dias em que a maldade dos homens
parecia querer vencer.
Mas continuaste,
degrau após degrau,
sem perder a capacidade de acreditar.
Há quem chame ingenuidade
a essa forma de olhar o mundo.
Eu chamo-lhe coragem.
Porque há em ti
uma espécie de estrela
que se recusa a endurecer,
que continua a acreditar
quando tantos já desistiram.
Hoje és homem.
Amanhã, talvez sejas pai.
E talvez nesse dia
descubras
o que agora apenas pressentes:
que o tempo
escorre por entre os dedos,
que os filhos crescem
enquanto julgamos estar apenas
a vê-los crescer,
e que, no fim,
somos nós, os pais,
quem mais aprende.
Porque o verdadeiro ciclo da vida
não é apenas passar
de filhos a pais.
É perceber, quando quase tudo passou,
que o maior mestre
foi aquele menino
que um dia nos roubava o descanso
e nos oferecia, sem o saber,
a mais bela lição de amor.
©Jomaro Cabrela | 2026
Comentários
Enviar um comentário