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©Jomaro Cabrela_Desculpa_2026

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  Desculpa É uma palavra mágica e pequena, na ponta da língua, pronta a usar. Raramente a dizemos — e é pena; não é fácil, tenho de concordar. Tudo começa em reconhecer a culpa, vencer o orgulho que não quer ceder; avançar, reparar, pedir desculpa, deixa o bom senso prevalecer. Onde havia ira e desatino, faz-se silêncio, abranda a tempestade; e um simples gesto, pequenino, devolve à vida a própria humanidade. Se foste tu a dar o primeiro passo, ganhas sempre, foste atrevido; ele não foi capaz de dar esse abraço... A magia acontece — ninguém sai vencido. © Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_O Termostato do Mundo_2026

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  O Termostato do Mundo Neste recanto do Universo, em que o mistério se adensa, a matéria, em alquimia, deu vida: a própria vida e o seu lado perverso, o homem, na sua ganância imensa, e a saúde da Terra foi atingida. Este planeta – prova viva: continentes, oceanos a respirar; o egoísmo exagerado é cegueira. Hipotecamos o futuro de forma definitiva, ignoramos que esta maravilha um dia pode acabar e provocamos desequilíbrios de forma desordeira. O termóstato do mundo está a avariar, o maior reservatório de água a desaparecer, a temperatura média do planeta a subir... O planeta cansado começa a sufocar, fenómenos extremos estão a acontecer; se ficarmos quietos, a vida vai-se extinguir. O planeta já está há muito doente, não é solução ficar de braços cruzados. Os cuidados paliativos tardam em chegar, o que fazemos não basta, não é suficiente; temos de ser responsáveis e não ficar parados: sem a saúde do planeta, o futuro não vai chegar. Se o destruirmos, não temos de nos preocupar: o ...

©Jomaro Cabrela_Infâncias difíceis_2026

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  Infâncias difíceis — anos 60 e 70 Entre o trabalho e a escola, o brincar era a última opção; ser criança não era condição, crescia cedo, rapariga ou rapazola, num tempo de falta e privação. Bola, privilégio só de poucos, que jogávamos muitas vezes descalços; eram pequenos os nossos percalços, mas pareciam mundos loucos, em rudes e distantes palcos. Como se não bastasse, havia o rabugento e mau da fita, que do outro lado do muro grita: «Furo a bola se aqui cai!», dizia, ameaça dura e maldita. Hoje são apenas lembranças de tempos duros e diferentes; vidas humildes dessas gentes, em que faltava tudo às crianças, mas nos fizeram resistentes. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Passos Desiguais_2026

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  Passos Desiguais Quando ergui os olhos, já vivias na tua torre. Olhava-te cá de baixo, sem saber como te alcançar. Via a porta, mas não tive a coragem de entrar, nem sabia como subir, nem qual o caminho até ti. Tu, lá em cima, não reparavas em mim, ou talvez não soubesses descer um pouco e dizer-me como chegar junto de ti. Quero acreditar que também não sabias. Ficaste lá em cima e eu cá em baixo; a distância até ao encontro era a mesma. Nunca encontrámos esse misterioso caminho. Ficaste no teu lugar e eu continuei no meu. Serás o eco de uma infância perdida? E eu, talvez, apenas um momento esquecido. Somos apenas a memória de um desencontro que nem o tempo nem o espaço conseguiram unir. O tempo passou, mas a distância permaneceu. E a vida tornou-se uma corrida. Quando um vai mais depressa que o outro, só há uma forma de seguirem juntos: um tem de abrandar o passo, o outro de se esforçar um pouco mais. ...mas ainda hoje não sei qual de nós corria mais devagar e qual julgava ir ma...

©Jomaro Cabrela_Sol, Lua e Terra_2026

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  Sol, Lua e Terra Sol e Lua, casal adverso, em eterna dança sem fim, neste recanto do Universo, cuidam da Terra, este jasmim. O Sol, que nos ilumina e aquece, talvez sós nesta imensa escuridão, seguro de vida, sempre permanece, segura-nos em órbita — nobre missão. A Lua acompanha-nos sem parar, com movimentos suaves e belos, sem luz, ilumina-nos com o seu luar, na sua forma de amar, em gestos singelos. A Terra, paraíso de almas vivas, de continentes, oceanos e vida, a mais bela das obras criativas, mistério da matéria — obra atrevida. Até quando? © Jomaro Cabrela | 2026
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Retrete (Anos 60 e 70) Neste cubículo solitário, onde sem vaidade todos vão, cumpre-se o dever necessário, que ninguém cumpre por opção. Unidos no profano e no sagrado, num acto simples e natural, sem hora nem lugar marcado, todos cumprem esse ritual. Sem espaço reservado no lar, lá fora, num tosco barraco improvisado, mau cheiro e moscas não faziam hesitar, ante a vontade, importa estar desocupado. Faça chuva, frio ou sol, a qualquer hora da noite ou do dia, ao sair debaixo do lençol, um jornal velho tinha serventia. Quem pensa que pior não podia ser, a história mostra outro legado: havia lares que nem isso podiam ter, era no monte ou na corte do gado. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_A mulher da minha atalaia_2026

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  A mulher da minha atalaia Ver-te entre as ondas, no abraço da praia, desafiando o sossego e a fúria do mar, até a bravura das ondas se rendeu ao teu andar. Segui-te do alto da minha atalaia, neste meu silêncio matinal e no teu caminhar. O mar tocava-te com pancadinhas de amor, para não espantar tamanha beleza. Componho uma tela com subtileza, escondo os sentimentos com destemor, no mundo que construí, nesta fortaleza. O teu andar desenhava poesia, a tua tranquilidade tornava-me inquieto; o vestido e o cabelo, em diálogo secreto, prendiam-me o olhar naquela maresia, neste meu desassossego completo . O lugar vazio que ficou sempre em mim, a chaga que me tortura e que não tem cura, ferida invisível que me atormenta nesta loucura, que me não dá sossego e me vai inquietar até ao fim... o teu silêncio aumenta a chama da minha amargura. O lugar vazio que ficou sempre em mim, a chaga que me tortura e que não tem cura, ferida invisível que me atormenta nesta loucura, que me não dá sossego...