©Jomaro Cabrela_Medo do silêncio_2026


 Medo do silêncio


Depois do tempo rápido

veio o tempo lento.

As pernas já não têm pressa,

o corpo já se recusa a obedecer.


Já ouço o silêncio
nas paredes cinzentas do meu quarto.
O mundo perdeu o fulgor
que nos aquecia sem darmos conta.


Deito-me e acordo em silêncio.


Olho à janela,
na esperança de alguém que não vem,
ou de encontrar outra alma como eu,
para fazer conversa.


Já mal vejo o carteiro.

Deixou de trazer cartas de saudade,

com palavras vindas de longe.

Agora traz apenas contas
e restos de um mundo apressado.


Mais um dia passa.


Os avisos do corpo

entram sem bater à porta.

A visão, os ouvidos, as dores...

tudo chega mais depressa do que eu.

Nem se apercebem

de que fiquei para trás.


Já perdi a importância de outrora.

Trago nos bolsos mais passado do que futuro.

Já perdi a formosura da juventude,
só carrego o peso da experiência.

Parece que já não precisam de mim.
De indispensável passei a dispensável.
De flor passei a pedra.

Até a vizinha partiu sem dizer adeus,

com bilhete apenas de ida

para a terra do silêncio.

Procurava-me para falar das mágoas,
porque também ela conhecia
a distância dos filhos.

Agora até essa voz se calou.


Não partilho as minhas insónias

com ninguém, nem as melhoras

das minhas dores lombares...

Já não me querem ouvir.


Às vezes olho-me ao espelho e digo:

— Bom dia!

Só para treinar a voz,

para que as palavras

não tropecem na boca.

Ninguém responde.

Apenas escuto

o ruído dos meus passos.


Resta-me o sonho.
Resta-me a imaginação.
Inventar mundos
e conversar com eles.


©Jomaro Cabrela | 2026

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