©Jomaro Cabrela_Escol_2026
Escol
(Exame nacional de Português nos anos 80)
Pairava um silêncio frio, de arrepiar,
só se ouviam passos e breves murmúrios.
Adivinhava-se um funeral ali perto:
o exame nacional de Português,
porta estreita para o ensino superior.
Num automatismo cego e mecânico,
entrámos para o velório anunciado.
Só se ouviam os passos e o ranger das cadeiras,
prontos para provar um saber
que nunca nos tinham ensinado.
Sob um silêncio imposto e receoso,
percorria-se a prova com um olhar inquieto;
mal havia tempo para medir a dificuldade.
Afinal, o tormento não parecia grande:
apenas havia uma palavra misteriosa.
“Escol” — mas que raio significaria?!
Quase todas as perguntas a rondavam,
até a gramática a perseguia.
Era uma ratoeira, tenho a certeza:
nem os dicionários a registavam.
Não era um exame ao saber,
mas um ardil para fazer errar;
assim o conceberam mentes perversas
que, cobardemente, se sentiram grandes,
fazendo da maldade prémio da cobardia.
“Escol”: a nata, a fina-flor, a elite,
a parte escolhida dos melhores.
Aqueles que, afinal, sobreviveram,
caíram e se levantaram vezes sem conta,
muito acima da pequenez dos seus juízes.
©Jomaro Cabrela | 2026
Comentários
Enviar um comentário