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©Jomaro Cabrela_Ir ao outro lado_2026

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  Ir ao outro lado Ir ao outro lado. Às vezes, ali tão perto, mas tão distante para lá chegar. É o lado do inimigo, o desconhecido, longe da zona de conforto, no terreno minado. Até pode ser fácil lá chegar, podemos até conhecer as pedras do caminho; o difícil é o regresso — ou talvez já nem faça falta saber voltar. — Mas vou. Parto para descobrir a verdade. Prometo voltar. Volta. Um Inverno mais tarde. Já não ouve o som do perigo. Mas a verdade vem com ela — num saco preto. O outro lado da vida. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Inventário dos Homens_2026

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Inventário dos Homens Uns anseiam o divino, mas temem morrer. Outros pretendem a riqueza, mas nunca se dão por saciados. Todos imploram por saúde, mas são poucos os que a cultivam. Muitos perdem-se na beleza e mal cuidam da pouca que herdaram. Há os que vivem para viajar, eternos escravos desse desejo. Há também os que vivem para ser: os melhores, os primeiros, os mais fortes, os mais talentosos, os eruditos, os únicos. Alguns já acreditam que o são; outros, resignados, sabem que nunca o serão. Há ainda os pobres que nasceram e morrerão na miséria; os feios, que nunca serão belos; os doentes que partem cedo demais; e os que enfrentam a morte sem temor, porque cresceram e singraram entre as pedras da calçada. Quando ela vier, que venha. Restam os que aprenderam a habitar a própria pele. Aqui estou: eu sou assim. Que importa medir o que não pode ser medido? ©Jomaro Cabrela | 2026  

©Jomaro Cabrela_Ciclo da Vida_Bruno_2026

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  Ciclo da Vida   Retrato de um Filho — Bruno O tempo passa apressado. Num instante, passamos de filhos a pais. Sem nos pedir licença, o ciclo da vida continua. Julgávamos ensinar, mas fomos ensinados pela vida, pelos filhos, a ver o que antes tantas vezes ignorávamos. E então chegaste tu. Pequeno, um diabrete de menino, com uma confiança que desafiava o medo e roubava o nosso descanso. Não paravas, só quando o sono te vencia ou para ver as Tartarugas Ninja. Depois,   quase sem darmos por isso,   o infantário tornou-se escola.   A infância,   esse caos maravilhoso,   ia dando lugar   a outra forma de crescer. Sem alarde, transformavas a tua energia em vontade de aprender e em mãos estendidas para quem caminhava mais devagar. Que privilégio foi assistir a essa transformação. Cresceste. Bom aluno, mas nunca apenas isso. As crianças pareciam ler-te a alma antes mesmo de conhecerem o teu nome. Nos animais vias companheiros, na música uma voz maior do ...

©Jomaro Cabrela_Estivemos tão perto_2026

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Estivemos tão perto Estivemos tão perto. Podia tocar-te, mas não toquei. Eras o sonho que me poderia aquecer neste Inverno frio. Queria sentir o teu abraço, a tua respiração. Separava-nos um muro. Fiquei pregado ao chão, fiquei apenas com o teu olhar, o teu sorriso. Fui cobarde, talvez. Esse passo curto era demasiado longo, tão longo que não o consegui dar. E tu, apenas silêncio. Agora, o muro fez-se deserto que apaga os nossos passos. Não te consigo tocar. Resta-me apenas esse instante que não troco pelo mundo inteiro. Vou ficar aí, nesse silêncio que ainda respira. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Quero ser Primavera_2026

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Quero ser Primavera Se pudesse escolher ser uma estação, tenho a certeza de que   seria a Primavera: entrar pela frincha da janela aberta, aquecer as sombras escuras e frias e vencer o Inverno triste, num concerto de alegria e esplendor. Fazer-me anunciar no salão da natureza, com um vestido bordado de cores, fazer brotar a vida em todos os recantos, apagar, por instantes, as tristezas e celebrar o encanto do mundo com fervor — pois há Invernos que teimam em ficar alimentados por uma negrura no ser humano: querer mais do que precisa e procurar o brilho no reflexo do sangue. A Primavera existe, mas o Inverno também. E tu, o que escolhes? ©Jomaro Cabrela | 2026
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Silêncio As paredes ainda sangravam, já sozinhas, em silêncio covarde. Mas, mesmo assim, os gritos continuavam lá, presos à insensatez do silêncio cego do mundo. Chorar já não era solução. As paredes permaneciam caladas, como se também elas tivessem aprendido a ter medo. Juntos, o vinho, o machismo, o ciúme e a violência cega ceifaram almas puras e inocentes. Tudo aconteceu entre gritos que ninguém queria ouvir — nem sequer as divindades que tanto se apregoam por aí. Depois, calaram-se para sempre. E, finalmente, acabou a dor. Já ninguém os ouve: uns, porque já não respiravam o ar que os rodeava; outros, porque escutam outros gritos entre muros metálicos; e outros ainda porque carregam apenas os gritos dentro de si. Mas as sombras ainda permanecem lá. Nas paredes, nos cantos, dentro dos que ficaram. E talvez seja esse o último silêncio: aquele que fica quando já ninguém grita. ©Jomaro Cabrela | 2026
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Democracia Soberania do povo, eleições livres, igualdade de direitos, liberdade de opinião, separação de poderes, respeito pelos direitos e liberdades fundamentais. Os perigos espreitam: manipulação da opinião, promessas populistas, tirania da maioria, corrupção económica, maus governantes, apatia dos cidadãos. Se a maioria escolher o caminho errado, será democracia? Mais liberdade, mais direitos, mais escolhas, mais perigo: será este o preço da democracia? ©Jomaro Cabrela | 2026