Silêncio
As paredes ainda sangravam,
já sozinhas, em silêncio covarde.
Mas, mesmo assim,
os gritos continuavam lá,
presos à insensatez
do silêncio cego do mundo.
Chorar já não era solução.
As paredes permaneciam caladas,
como se também elas
tivessem aprendido a ter medo.
Juntos, o vinho, o machismo,
o ciúme e a violência cega
ceifaram almas puras e inocentes.
Tudo aconteceu entre gritos
que ninguém queria ouvir —
nem sequer as divindades
que tanto se apregoam por aí.
Depois, calaram-se para sempre.
E, finalmente, acabou a dor.
Já ninguém os ouve:
uns, porque já não respiravam
o ar que os rodeava;
outros, porque escutam outros gritos
entre muros metálicos;
e outros ainda porque carregam
apenas os gritos dentro de si.
Mas as sombras
ainda permanecem lá.
Nas paredes, nos cantos,
dentro dos que ficaram.
E talvez seja esse
o último silêncio:
aquele que fica
quando já ninguém grita.
©Jomaro Cabrela | 2026
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