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©Jomaro Cabrela_A mulher da minha atalaia_2026

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  A mulher da minha atalaia Ver-te entre as ondas, no abraço da praia, desafiando o sossego e a fúria do mar, até a bravura das ondas se rendeu ao teu andar. Segui-te do alto da minha atalaia, neste meu silêncio matinal e no teu caminhar. O mar tocava-te com pancadinhas de amor, para não espantar tamanha beleza. Componho uma tela com subtileza, escondo os sentimentos com destemor, no mundo que construí, nesta fortaleza. O teu andar desenhava poesia, a tua tranquilidade tornava-me inquieto; o vestido e o cabelo, em diálogo secreto, prendiam-me o olhar naquela maresia, neste meu desassossego completo . O lugar vazio que ficou sempre em mim, a chaga que me tortura e que não tem cura, ferida invisível que me atormenta nesta loucura, que me não dá sossego e me vai inquietar até ao fim... o teu silêncio aumenta a chama da minha amargura. O lugar vazio que ficou sempre em mim, a chaga que me tortura e que não tem cura, ferida invisível que me atormenta nesta loucura, que me não dá sossego...
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  Apenas uma ausência A morte não é nada de mais: apenas o ponto final do livro que acabamos de escrever sobre a vida que escolhemos ter. O que não conseguimos ser, o que gostávamos de ser… já pouco importa. Fica o que fomos. Queremos continuar a ser o vosso livro preferido, sentir as vossas mãos a folheá-lo, a ser resposta para as vossas inquietações. Continuaremos a ouvir-vos chamar pelo nosso nome. Não vos responderemos, mas continuaremos a ser os mesmos: as mesmas memórias. Apenas nos ausentamos. Seremos sempre o que fomos. Seremos sempre o que fomos… mesmo que ausentes. © Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Herdeiros de um Mundo sem Manual_2026

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  Herdeiros de um Mundo sem Manual No seu desassossego, o ser humano, que herdou este mundo sem regras nem manuais, procura nas crenças e até no profano, um abrigo para as dores, nos ritos ancestrais; sonha habitar dimensões além do mundano, e erguer outros mundos em planos espirituais. O pensamento leva-o mais longe que as pernas, nos sonhos cria mundos que não sabe explicar; a arte acompanha-o desde as antigas cavernas, nas preces encontra voz para pedir e suplicar às divindades ocultas, distantes e eternas, que nem no fundo da alma consegue decifrar. Para entender o que a ciência não explica, e para curas que o homem não sabe conceber, procura a luz que a alma dignifica, neste mundo louco, impossível de compreender; não há certezas para quem crê ou quem critica, nesta curta passagem que nos cabe viver. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Cagaço_2026

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  Cagaço (Infância nos anos 60) Tinha meia dúzia de anos, talvez, idade de correr e brincar atrás do vento, mas a infância, no rude mundo rural, aprendia primeiro o sofrimento, muito antes dos livros e da sensatez. Ia eu à frente das vacas lentas, pequeno ainda para tamanha tarefa, puxando o carro vazio para o monte; tropecei nas pedras e caí ali mesmo, sob o peso das patas enormes e atentas. Uma passou-me rente ao rosto, outra pisou a pedra mesmo ao lado do peito, a roda pesada galgou o meu corpo exposto, até sair junto ao meu ombro esquerdo, mas a morte passou por mim sem me levar. Levantei-me, aturdido, quase sem voz, sem perceber como saíra dali inteiro; o carro e as vacas seguiram caminho acima, deixando-me ali, em choque, sem compreender, como quem regressa da morte sem saber porquê. O meu pai perguntou apenas: «Estás bem?» Respondi, com medo: «Estou...» — quase a chorar. «Não contes o sucedido a ninguém.» E a vida continuou, sem reflectir, sem parar, como se nada ali tivesse...

©Jomaro Cabrela_Pegadas do Desconhecido_2026

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Pegadas do Desconhecido Há feitos maiores do que os homens, que contemplamos sem compreender. Serão pegadas vindas de outros mundos, ou limites do nosso próprio saber? Só os olhos do céu contemplam as Linhas de Nasca, traços perdidos no deserto profundo. Os Moais gigantes da Ilha de Páscoa vigiam, enquanto o Disco de Festo guarda o seu segredo. Não entendemos os Círculos de Fadas, desenhos que a Natureza fez surgir: será a sede das plantas pela última gota de água, ou um segredo que a Terra insiste em guardar? Sejam as esferas de pedra dos Diquís, ou o Mecanismo de Anticitera da Grécia antiga; sejam as pirâmides erguidas para a eternidade, pelo suor de muitos em nome do sagrado. Sejam obras maiores do génio humano ou esculturas moldadas pela Natureza, revelam a força imensa do Universo e a brevidade do homem na eternidade. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Ti Jerónimo Passarinho_2026

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Ti Jerónimo Passarinho Não me lembro   de o ver levantar,   de o ver tomar o pequeno-almoço,   das simples rotinas diárias.   Há muito que já se levantara,   e eu não percebia. Principalmente nas noites de Sábado.   Não precisávamos de ir à escola;   os gritos do vento e o praguejar dos céus   anunciavam maus presságios.   Sentíamos as telhas querer levantar voo;   o vento e o frio, sem pedir licença,   tinham sempre a porta aberta.   Eu, feliz, aconchegado no abrigo   das poucas mantas frias,   no ninho sobrelotado   — às vezes quatro! —, não percebia   por que ele já tinha saído. Mais tarde,   o milho tombado,   a erva calcada,   árvores arrancadas,   frutas imaturas no chão,   muros caídos, telhas levantadas...   Mesmo assim, os animais na corte   precisavam de comer.   Afinal, já tinham comido. Não sabia palavras suaves.   Tinha o seu idioma,   idioma que...

©Jomaro Cabrela_Emigrante_2026

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  Emigrante — A carta de regresso Enredado pelas voltas do jogo da vida, calhou-lhe a carta de regressar à casa de partida. Mais rico na carteira e mais pobre na alma, faltavam-lhe anos que dinheiro nenhum comprava. Imaginava os amigos de infância como eram; a criança dentro dele teimava em ignorar a idade. Mas os seus rostos eram folhas no Outono, deu-se um apagão de décadas — quase tudo se perdeu. O sorriso era véu sobre tantas amarguras, o vento da distância levou cumplicidades. As pedras pesavam nos bolsos de cada um, o corpo já não obedecia aos sonhos da alma. O mais importante da vida ficou para trás: os filhos ficaram longe, com a mala do futuro. Já não podia segurar os netos ao colo, adivinhava-se um caminho curto e lento. Voltaram velhos e sós. ©Jomaro Cabrela | 2026