©Jomaro Cabrela_Ti Jerónimo Passarinho_2026
Ti Jerónimo Passarinho
Não me lembro
de o ver levantar,
de o ver tomar o pequeno-almoço,
das simples rotinas diárias.
Há muito que já se levantara,
e eu não percebia.
Principalmente nas noites de Sábado.
Não precisávamos de ir à escola;
os gritos do vento e o praguejar dos céus
anunciavam maus presságios.
Sentíamos as telhas querer levantar voo;
o vento e o frio, sem pedir licença,
tinham sempre a porta aberta.
Eu, feliz, aconchegado no abrigo
das poucas mantas frias,
no ninho sobrelotado
— às vezes quatro! —,
não percebia
por que ele já tinha saído.
Mais tarde,
o milho tombado,
a erva calcada,
árvores arrancadas,
frutas imaturas no chão,
muros caídos, telhas levantadas...
Mesmo assim, os animais na corte
precisavam de comer.
Afinal, já tinham comido.
Não sabia palavras suaves.
Tinha o seu idioma,
idioma que não entendíamos.
Não mostrava gestos de amor —
seria isso um sinal
que não percebíamos?
Sinal de resiliência, protecção,
preocupação e superação.
Se tudo estava bem,
logo percebíamos
pelo seu assobiar
de tradicionais melodias.
Só agora percebemos.
©Jomaro Cabrela | 2026
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