©Jomaro Cabrela_Cagaço_2026
Cagaço
(Infância nos anos 60)
Tinha meia dúzia de anos, talvez,
idade de correr e brincar atrás do vento,
mas a infância, no rude mundo rural,
aprendia primeiro o sofrimento,
muito antes dos livros e da sensatez.
Ia eu à frente das vacas lentas,
pequeno ainda para tamanha tarefa,
puxando o carro vazio para o monte;
tropecei nas pedras e caí ali mesmo,
sob o peso das patas enormes e atentas.
Uma passou-me rente ao rosto,
outra pisou a pedra mesmo ao lado do peito,
a roda pesada galgou o meu corpo exposto,
até sair junto ao meu ombro esquerdo,
mas a morte passou por mim sem me levar.
Levantei-me, aturdido, quase sem voz,
sem perceber como saíra dali inteiro;
o carro e as vacas seguiram caminho acima,
deixando-me ali, em choque, sem compreender,
como quem regressa da morte sem saber porquê.
O meu pai perguntou apenas: «Estás bem?»
Respondi, com medo: «Estou...» — quase a chorar.
«Não contes o sucedido a ninguém.»
E a vida continuou, sem reflectir, sem parar,
como se nada ali tivesse acontecido.
Nem médico, nem exames, nem um abraço,
nem uma mão que afagasse o meu pavor;
naquele tempo era assim:
crescia-se à pressa, sem tempo para ser criança.
Fiquei apenas com um enorme cagaço.
©Jomaro Cabrela | 2026
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