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©Jomaro Cabrela_Herdeiros de um Mundo sem Manual_2026

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  Herdeiros de um Mundo sem Manual No seu desassossego, o ser humano, que herdou este mundo sem regras nem manuais, procura nas crenças e até no profano, um abrigo para as dores, nos ritos ancestrais; sonha habitar dimensões além do mundano, e erguer outros mundos em planos espirituais. O pensamento leva-o mais longe que as pernas, nos sonhos cria mundos que não sabe explicar; a arte acompanha-o desde as antigas cavernas, nas preces encontra voz para pedir e suplicar às divindades ocultas, distantes e eternas, que nem no fundo da alma consegue decifrar. Para entender o que a ciência não explica, e para curas que o homem não sabe conceber, procura a luz que a alma dignifica, neste mundo louco, impossível de compreender; não há certezas para quem crê ou quem critica, nesta curta passagem que nos cabe viver. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Cagaço_2026

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  Cagaço (Infância nos anos 60) Tinha meia dúzia de anos, talvez, idade de correr e brincar atrás do vento, mas a infância, no rude mundo rural, aprendia primeiro o sofrimento, muito antes dos livros e da sensatez. Ia eu à frente das vacas lentas, pequeno ainda para tamanha tarefa, puxando o carro vazio para o monte; tropecei nas pedras e caí ali mesmo, sob o peso das patas enormes e atentas. Uma passou-me rente ao rosto, outra pisou a pedra mesmo ao lado do peito, a roda pesada galgou o meu corpo exposto, até sair junto ao meu ombro esquerdo, mas a morte passou por mim sem me levar. Levantei-me, aturdido, quase sem voz, sem perceber como saíra dali inteiro; o carro e as vacas seguiram caminho acima, deixando-me ali, em choque, sem compreender, como quem regressa da morte sem saber porquê. O meu pai perguntou apenas: «Estás bem?» Respondi, com medo: «Estou...» — quase a chorar. «Não contes o sucedido a ninguém.» E a vida continuou, sem reflectir, sem parar, como se nada ali tivesse...

©Jomaro Cabrela_Pegadas do Desconhecido_2026

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Pegadas do Desconhecido Há feitos maiores do que os homens, que contemplamos sem compreender. Serão pegadas vindas de outros mundos, ou limites do nosso próprio saber? Só os olhos do céu contemplam as Linhas de Nasca, traços perdidos no deserto profundo. Os Moais gigantes da Ilha de Páscoa vigiam, enquanto o Disco de Festo guarda o seu segredo. Não entendemos os Círculos de Fadas, desenhos que a Natureza fez surgir: será a sede das plantas pela última gota de água, ou um segredo que a Terra insiste em guardar? Sejam as esferas de pedra dos Diquís, ou o Mecanismo de Anticitera da Grécia antiga; sejam as pirâmides erguidas para a eternidade, pelo suor de muitos em nome do sagrado. Sejam obras maiores do génio humano ou esculturas moldadas pela Natureza, revelam a força imensa do Universo e a brevidade do homem na eternidade. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela_Ti Jerónimo Passarinho_2026

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Ti Jerónimo Passarinho Não me lembro   de o ver levantar,   de o ver tomar o pequeno-almoço,   das simples rotinas diárias.   Há muito que já se levantara,   e eu não percebia. Principalmente nas noites de Sábado.   Não precisávamos de ir à escola;   os gritos do vento e o praguejar dos céus   anunciavam maus presságios.   Sentíamos as telhas querer levantar voo;   o vento e o frio, sem pedir licença,   tinham sempre a porta aberta.   Eu, feliz, aconchegado no abrigo   das poucas mantas frias,   no ninho sobrelotado   — às vezes quatro! —, não percebia   por que ele já tinha saído. Mais tarde,   o milho tombado,   a erva calcada,   árvores arrancadas,   frutas imaturas no chão,   muros caídos, telhas levantadas...   Mesmo assim, os animais na corte   precisavam de comer.   Afinal, já tinham comido. Não sabia palavras suaves.   Tinha o seu idioma,   idioma que...

©Jomaro Cabrela_Emigrante_2026

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  Emigrante — A carta de regresso Enredado pelas voltas do jogo da vida, calhou-lhe a carta de regressar à casa de partida. Mais rico na carteira e mais pobre na alma, faltavam-lhe anos que dinheiro nenhum comprava. Imaginava os amigos de infância como eram; a criança dentro dele teimava em ignorar a idade. Mas os seus rostos eram folhas no Outono, deu-se um apagão de décadas — quase tudo se perdeu. O sorriso era véu sobre tantas amarguras, o vento da distância levou cumplicidades. As pedras pesavam nos bolsos de cada um, o corpo já não obedecia aos sonhos da alma. O mais importante da vida ficou para trás: os filhos ficaram longe, com a mala do futuro. Já não podia segurar os netos ao colo, adivinhava-se um caminho curto e lento. Voltaram velhos e sós. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela _Hino à Vida_2026

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  Hino à Vida Momento curto, curto demais   para tudo o que há por fazer. Por isso   não o devemos desperdiçar. Acorda. Cada instante deveria ser um hino à vida. Há quem acredite num outro lado, melhor talvez… Mas ninguém sabe. Haja ou não, pouco importa. Aproveita este.   É gratuito. Algumas coisas já fizemos, uma infinidade por fazer. Abre os olhos: todos os dias há milagres. Um insecto numa flor. O sol a entrar pela frincha de uma janela   cansada do viver. Sê feliz. Dá uma oportunidade a este milagre. ©Jomaro Cabrela | 2026

©Jomaro Cabrela _Chegou ao seu destino_2026

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  Chegou ao seu destino O Neca não teve inclinação para a escola. Conseguiram-lhe a carta de ciclomotores, duas fotos, algum dinheiro — foi fácil. Sem a “pinga”, era bom rapaz e trabalhador, um herói que só aquela terra conhecia. Conduzia o carrito e nunca foi apanhado. Eram só trajectos curtos, lá pela aldeia, nem precisava de seguro, era só por ali. Vivia como se o perigo fosse brincadeira, confundia imprudência com valentia. Um dia, entusiasmado, dava boleia à prima, que viera da cidade à festa da terra. O seu sorriso malandro mostrava o herói que julgava ser. O GPS avisava-o da polícia ali perto. Sorria; a tecnologia parecia dar-lhe razão. — Conheço outro caminho! — dizia ele. “Recalculando o caminho…” — respondia a máquina. — A polícia é que não me apanha! — repetia. O rosto da prima denunciava o desconforto, o medo prendia-lhe a voz. Ele confiava mais na sorte do que no perigo, acreditava que o fado o protegia. Acelerava pela estrada de terra batida, curva atrás de curva… e s...