©Jomaro Cabrela _Chegou ao seu destino_2026
Chegou ao seu destino
O Neca não teve inclinação para a escola.
Conseguiram-lhe a carta de ciclomotores,
duas fotos, algum dinheiro — foi fácil.
Sem a “pinga”, era bom rapaz e trabalhador,
um herói que só aquela terra conhecia.
Conduzia o carrito e nunca foi apanhado.
Eram só trajectos curtos, lá pela aldeia,
nem precisava de seguro, era só por ali.
Vivia como se o perigo fosse brincadeira,
confundia imprudência com valentia.
Um dia, entusiasmado, dava boleia à prima,
que viera da cidade à festa da terra.
O seu sorriso malandro mostrava o herói que julgava ser.
O GPS avisava-o da polícia ali perto.
Sorria; a tecnologia parecia dar-lhe razão.
— Conheço outro caminho! — dizia ele.
“Recalculando o caminho…” — respondia a máquina.
— A polícia é que não me apanha! — repetia.
O rosto da prima denunciava o desconforto,
o medo prendia-lhe a voz.
Ele confiava mais na sorte do que no perigo,
acreditava que o fado o protegia.
Acelerava pela estrada de terra batida,
curva atrás de curva… e surge, inesperada,
uma pedra enorme, arrastada pela última tempestade.
Pum...
Depois... o fumo e o silêncio.
O GPS, indiferente, repetiu:
“Chegou ao seu destino.”
©Jomaro Cabrela | 2026
Comentários
Enviar um comentário