©Jomaro Cabrela_A Procissão_2026




















A Procissão 

(Exame da 2.ª Classe)


Acordei entre o aprendiz e arguido, 

o coração num pulsar sem fim;

vesti a roupa melhor, muito retraído, 

e segui o caminho para o destino, assim; 

levava um peso escuro e indefinido: 

provar ao mundo o que não sei de mim.


Tornei-me ainda mais pequeno então, 

a escola erguia muros frios, altos; 

o medo prendia-me as pernas ao chão, 

e os passos eram tímidos e incautos; 

soou a campainha — e, em suspensão, 

calaram-se vozes, gestos e sobressaltos.


Na escola do Amial crescia o receio, 

em salas vastas, de silêncio frio; 

cada passo ecoava, estranho e alheio, 

e o medo em mim cavava um vazio; 

abriu-se a porta — e num súbito anseio,

entrámos todos num igual desvario.


A escola em Ventuzelas, pobre abrigo, 

mais palheiro tosco que lugar de estudar; 

o chão cedia ao peso e ao passo antigo, 

e o vento entrava sem se anunciar; 

por baixo, o gado, em húmido castigo, 

e o ar cheirava a estrume e ao lento ruminar.


O tema da prova era fácil e divertido: 

festas do povo — simples de entender; 

mas logo o traço, súbito e temido, 

pediu uma procissão para fazer; 

fiquei suspenso, quase perdido, 

sem gesto firme que a pudesse erguer.


— «Zé Maria, tenta — tu és capaz!»

disse a mestra, firme, sem ceder; 

o tempo ardia — e, no instante fugaz, 

parecia eterno e firme em me reter; 

ergui o lápis — e o medo ficou para trás,

deixando a mão livre para correr.


Primeiro o andor, depois a gente, 

o padre à frente e a música no ar; 

cada figura nascia lentamente, 

como se alguém ma viesse ditar; 

e vi no papel, súbito e presente, 

um mundo inteiro pronto a caminhar.


Hoje recordo esse instante antigo,
e sinto ainda a mão que me fez crescer;
não foi desenho — foi mais que abrigo,
foi uma porta que me ensinou a ver;
guardo esse dia vivo aqui comigo,

uma chama que não deixa esmorecer.


©Jomaro Cabrela | 2026

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