Galeria de Água e Luz
Nesta galeria imensa demorei-me.
Tela pintada de verdes e azuis,
salpicada de vermelho e branco.
A montanha chorava na sua pressa,
como o véu da noiva a caminho do altar.
Neste monte branco de espuma que fumega,
a água salta de pedra em pedra,
sem pressa de chegar ao lago que a esperava.
A natureza sustinha toda a cena na mão —
apenas se consola com a obra feita.
Uma orquestra tocava:
água em queda quebrava o silêncio,
acordes nos gritos felizes das crianças,
o chilrear das aves no seu namorisco,
ao fundo, sussurros de eterna conversa.
Deliciava-me — só os meus olhos podiam ver —
perfumes da natureza:
o pólen da Primavera,
o aroma do pão acabado de sair do forno.
A vida apressada ficara suspensa.
A pressa não fora convidada;
todos esqueceram o peso que carregam,
e as crianças, felizes, sonhavam.
— Filipe, temos de ir.
— Mãe.
Congelei.
Eras tu, a semear beleza e fantasias
só minhas —
porque não existo há tanto tempo.
©Jomaro Cabrela 2026
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