©Jomaro Cabrela_Tribunal da Vida_2026
Tribunal da Vida
Não temo ser no mundo julgado
por crimes que jamais cometi;
maior pecado é o que não vivi,
por não seguir teu passo ao lado,
nem por um só instante ousado,
no tempo estéril que em dor perdi.
Não temo a tua austera audiência,
que em mim já pesa antiga pena;
nunca foste porto nem serena
luz que valesse na ausência;
fria indiferença que se adensa,
e me torna nesta alma pequena.
Não temo ouvir a tua sentença;
cumpri-la-ei sem vacilar,
pois não há culpa a resgatar,
na minha crença, que suspensa,
ante a mudez da tua presença,
não me deixa sequer respirar.
Aceito o jugo e o castigo,
qualquer que seja o teu querer;
mas se ainda posso merecer
um gesto breve de abrigo,
em teus braços me faço mendigo,
para em ti ver o sol renascer.
Se procuras um culpado
e o meu nome queres ditar,
deixa-me em silêncio ficar;
serei o réu já condenado,
por crime nunca praticado,
sem defesa e sem reclamar.
©Jomaro Cabrela | 2026
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