©Jomaro Cabrela_O Costume da “Pinga”_2026.

O Costume da “Pinga” 


O sol hesitava,
pensativo,
em abandonar-nos.


A cidade aguardava, distante,
a poucos quilómetros da aldeia.


Não importa o motivo que nos traz
à casa de um vizinho;
somos recebidos como
só eles sabem receber — bem.


Depois das saudações, o ritual:


— «Quereis beber uma pinga?»


O sim ou o não pouco vale —
a pinga desliza sempre até nós,
como se conhecesse o caminho.


Alguns homens, à mesa,
trocavam risos
e palavras ligeiras,

enquanto as mulheres, 

à lareira,
cozinhavam
ao calor, o jantar.


A garrafa, solitária,
aterrava na mesa.

A adega e a pipa
não moravam longe.


Cada um, por ordem,
erguia o gargalo aos lábios.

De mão em mão,
a garrafa parecia mais leve,
dançando entre eles, cúmplice.


O anfitrião, satisfeito,
fez questão
de permanecer ao meu lado.


Sem pedir licença,
leu o meu rosto:
o costume que eu, inadvertidamente,
reprovava.


— Desculpe…


Com gesto rápido e tímido,
no lenço branco, amarrotado,
escondido no bolso,
encontrou a solução silenciosa.


Contrariado, bebi.


De um lado,
o berço e a oferta;

do outro,
saber e anseio.

Nem sempre a mão que dá
tem a brancura da que recebe.


Abismo de que ninguém tem culpa;
o respeito falou em silêncio.


Tinham, afinal,
a sabedoria do dar,
a simplicidade de quem sabe oferecer,
dando o pouco que têm.


Há muitas coisas piores.


©Jomaro Cabrela 2026

Nota: Inspirado num acontecimento nos anos 70, em Cinfães.

 

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